A Questão da Terra

A centralidade da questão da terra

O que os atuais deslocamentos e migrações das comunidades Guarani nos revelam é que – mesmo existindo as permanências culturais de caráter religioso – a materialidade da terra passa a ser determinante. Ainda que os Guarani se utilizem do discurso religioso e tradicional como forma de reeleitura de mundo e estratégia de ocupação dos espaços que, por meio desta reelaboração entendem que são seus por direito, é forçoso reconhecer o profundo caráter sócio-histórico deste argumento, no sentido de não mitologizarmos este fenômeno, mas sim, historicizá-lo. É necessário compreendermos que a terra sem males, nas palavras da antropóloga Graciela Chamorro: “não é mera utopia, no sentido de um não lugar, como muitos querem entender, para se desvencilhar dos incômodos que a reivindicação dos indígenas pode desencadear”. Segundo Chamoro está “interpretação tem favorecido um certo descompromisso dos agentes indigenistas” que representam o estado brasileiro em sua mediação pela demanda das terras tradicionais, dificultando o reconhecimento e a demarcação de terras.

Nesse sentido autores como Meliá, Chamorro, Brighentti, Pompa e Garlet vem nos alertando para a necessidade de trazer a questão da terra para o centro do debate, pois de outro modo, o único espaço que restará para os Guarani seja no mundo simbólico de rezas e suas belas palavras, isto é, apenas no espaço mítico dos sonhos e visões dos xamõi. Ao caracterizarmos as migrações indígenas Guarani como uma manifestação predominantemente mítica, se corre o risco de camuflar a verdadeira e real demanda territorial. E, no caso das atuais migrações, entendê-las e relacioná-las a absoluta falta de terras, que vitimam estes povos, permite dar materialidade as reivindicações dos indígenas, e, dessa forma, dar visibilidade a sua luta histórica em manter-se Guarani.